
"Se então um menino vem ao encontro de vocês, se ele ri, se tem cabelos de ouro, se não respondem quando interrogam, adivinharão quem é. Então, por favor, não me deixem tão triste: escrevam-me depressa que ele voltou..." Pequeno Príncipe - Saint Exupéry.
Querido Saint Exupéry,
Estive no deserto e encontrei seu Pequeno Príncipe e como você pediu vim te contar como foi.
O engraçado é que fui até o deserto sem sair da minha casa e o mais engraçado ainda é que o meu encontro com o Pequeno Príncipe se deu exatamente na leitura do seu livro.
Confesso-te que já o tinha lido há alguns anos atrás, mas pra mim não se passou de uma historinha irrelevante contada por um adulto qualquer a fim de impressionar as crianças, e ter o que contar antes delas dormirem.
De tanto falarem da beleza de seus escritos, decidi relê-lo. Deitei-me no sofá e comecei a leitura, mas quando percebi não estava mais ali. Não existia nada ao meu redor, os móveis da minha sala tinham desaparecido, minha casa não era mais a mesma, não havia nada além de mim e do livro em minhas mãos, tinha chegado ao deserto.
Fui além, muito além, e por alguns momentos tive olhares de pessoas pequenas, e só assim consegui ver o teu Pequeno Príncipe. Na verdade, não posso mentir pra você, aquele Pequeno Príncipe era meu. Tenho plena convicção de que eles tem semelhanças, mas não são os mesmo, isso com certeza não.
O meu Pequenino Príncipe era muito belo, sábio e puro. Era como eu já tinha sido um dia, era o inverso do que me transformei. Lembrei-me que na época que eu era como ele eu via as coisas belas, eu amava as coisas mais simples, ficava tão feliz com um sorriso bem firme, não havia maldade no mundo, nada era tão complicado assim, tudo era poesia.
Mas eu cresci. Irrefutavelmente tornei-me uma pessoa grande. Nunca pensei nisso como uma coisa ruim, muito pelo contrário, eu adorava pensar que era capaz de agir racionalmente, que podia olhar para uma criança de uma forma superior por ser entendido do mundo e que podia trabalhar muito por saber que seria bem recompensado financeiramente.
O pequeno príncipe apareceu pra me mostrar que tudo isso me fez perder a singularidade e a inocência que me eram únicas. Tornei-me como a massa. Faço tudo o que todo mundo faz. Isso nem é tão ruim, você é bem aceito por ser assim. Era exatamente isso que eu pensava antes de me deliciar em seus escritos, querido Exupéry.
Há muito, eu não conseguia ver além do que se mostrava concreto, apenas concordava, explicava ou justificava o que me era exposto, mas dificilmente eu me pegava tentando compreender algum fenômeno. Tudo era de fato, só fatos. Mas você me levou ao deserto, fez-me abster dos preconceitos que me compunham, e de lá eu voltei a ver as possibilidades do meu mundo. Eu posso não ser o que me impõem, eu posso querer ser diferente e eu posso conseguir.
Tive que voltar pra sala da minha casa e notei que o aspecto estava diferente, não a casa em si, mas o mundo inteiro. Percebi que a mudança então, estava em mim. O deserto me refez. Tua leitura me colocou de volta num mundo perdido há muito tempo. E o meu Pequeno Príncipe disfarçado no seu Pequeno Príncipe fez reacender em mim, a pessoa pequena que estava oculta. Agora eu vou lutar pra que ela não me abandone mais.
Ah, querido Exupéry, nossos pequenos príncipes cresceram, mas nunca se tornarão pessoas grandes como as que eu encontro em minha rotina. Antes que eu me esqueça, ele te mandou um grande abraço.


