sábado, 13 de junho de 2009


"Se então um menino vem ao encontro de vocês, se ele ri, se tem cabelos de ouro, se não respondem quando interrogam, adivinharão quem é. Então, por favor, não me deixem tão triste: escrevam-me depressa que ele voltou..." Pequeno Príncipe - Saint Exupéry.

Querido Saint Exupéry,
Estive no deserto e encontrei seu Pequeno Príncipe e como você pediu vim te contar como foi.
O engraçado é que fui até o deserto sem sair da minha casa e o mais engraçado ainda é que o meu encontro com o Pequeno Príncipe se deu exatamente na leitura do seu livro.
Confesso-te que já o tinha lido há alguns anos atrás, mas pra mim não se passou de uma historinha irrelevante contada por um adulto qualquer a fim de impressionar as crianças, e ter o que contar antes delas dormirem.
De tanto falarem da beleza de seus escritos, decidi relê-lo. Deitei-me no sofá e comecei a leitura, mas quando percebi não estava mais ali. Não existia nada ao meu redor, os móveis da minha sala tinham desaparecido, minha casa não era mais a mesma, não havia nada além de mim e do livro em minhas mãos, tinha chegado ao deserto.
Fui além, muito além, e por alguns momentos tive olhares de pessoas pequenas, e só assim consegui ver o teu Pequeno Príncipe. Na verdade, não posso mentir pra você, aquele Pequeno Príncipe era meu. Tenho plena convicção de que eles tem semelhanças, mas não são os mesmo, isso com certeza não.
O meu Pequenino Príncipe era muito belo, sábio e puro. Era como eu já tinha sido um dia, era o inverso do que me transformei. Lembrei-me que na época que eu era como ele eu via as coisas belas, eu amava as coisas mais simples, ficava tão feliz com um sorriso bem firme, não havia maldade no mundo, nada era tão complicado assim, tudo era poesia.
Mas eu cresci. Irrefutavelmente tornei-me uma pessoa grande. Nunca pensei nisso como uma coisa ruim, muito pelo contrário, eu adorava pensar que era capaz de agir racionalmente, que podia olhar para uma criança de uma forma superior por ser entendido do mundo e que podia trabalhar muito por saber que seria bem recompensado financeiramente.
O pequeno príncipe apareceu pra me mostrar que tudo isso me fez perder a singularidade e a inocência que me eram únicas. Tornei-me como a massa. Faço tudo o que todo mundo faz. Isso nem é tão ruim, você é bem aceito por ser assim. Era exatamente isso que eu pensava antes de me deliciar em seus escritos, querido Exupéry.
Há muito, eu não conseguia ver além do que se mostrava concreto, apenas concordava, explicava ou justificava o que me era exposto, mas dificilmente eu me pegava tentando compreender algum fenômeno. Tudo era de fato, só fatos. Mas você me levou ao deserto, fez-me abster dos preconceitos que me compunham, e de lá eu voltei a ver as possibilidades do meu mundo. Eu posso não ser o que me impõem, eu posso querer ser diferente e eu posso conseguir.
Tive que voltar pra sala da minha casa e notei que o aspecto estava diferente, não a casa em si, mas o mundo inteiro. Percebi que a mudança então, estava em mim. O deserto me refez. Tua leitura me colocou de volta num mundo perdido há muito tempo. E o meu Pequeno Príncipe disfarçado no seu Pequeno Príncipe fez reacender em mim, a pessoa pequena que estava oculta. Agora eu vou lutar pra que ela não me abandone mais.
Ah, querido Exupéry, nossos pequenos príncipes cresceram, mas nunca se tornarão pessoas grandes como as que eu encontro em minha rotina. Antes que eu me esqueça, ele te mandou um grande abraço.

sábado, 30 de maio de 2009

Querido Dado,

Hoje me lembrei que faz alguns meses que não nos falamos mais. Deu-me uma saudade de te contar mais sobre mim. Poderia ter sido mais de um ano, poderia ter sido toda uma vida, mas seus dias chegaram ao fim, sua paciência chegou ao limite e tivemos que nos despedir.
Mas hoje, eu retomo minha velha tradição de te contar mero detalhe. A vida continua passando naquele ritmo que você conhece, ou talvez, um pouquinho mais apressada. Tenho novas companhias, mas todas as velhas continuam por aqui. Aqueles amigos que me fizeram chorar e que você parecia apelar pra que eu os esquecesse, continuam aqui de um modo diferente. Aquele miserável amor continua aqui, mas está indo embora. Aquela incompletude aparece de vez em quando, mas é bom que nunca deixe de me visitar. Continua aqui também aquelas paixões que você nunca compreendeu. Não são as mesmas, mas tem o mesmo estilo. Continua a insatisfação de permanência, só que num grau menos elevado, porque julgo está mudando mais. Continua a vontade de abraçar o mundo e a sensação de ter sido rejeitada.
Ah Dado, aquelas vezes em que só você me entendia. Acontecia uma coisa e eu corria pra te contar. Chorava sobre você. Ria muito sozinha (contigo!). Quando tentava te contar as partes sutis e perdia na descrição. As vezes que morria de vontade de te confessar uma aventura, mas alguém podia ver e eu precisava me conter. Ah Dado, tudo continua acontecendo. Mas de uma forma diferente. Ou talvez, só o meu olhar tenha se diferenciado.
Minha vontade de conhecer o mundo também aumentou bastante, acho que naquela época nem conversávamos muito sobre isso, se hoje, você lesse meus rabiscos, iria achar que sou uma outra pessoa. Mas, na verdade, acho que só mudou a facilidade como falo disso. Ah, como eu conheci outras (e as mesmas) pessoas. Alguma já estava ali o tempo todo, mas a incapacidade de mover olhares não me deixava vê-la. Agora, identifico-me intensamente, virou uma cúmplice como outras de longos anos. E isso me fez entender que o meu espaço ainda deve ser explorado.
Olha, Dado, nossas palavras trocadas me faziam bem. Muito bem! Tentei te substituir, mas foi uma troca sem nome. Ainda não me acostumei a não direcionar meus dizeres, e às vezes, até me pego querendo colocar teu nome. Mas foi bom, fez bem. Quanto a você, estás bem guardado, espero que ninguém te encontre, senão eu me perco.

Naiady.

quinta-feira, 30 de abril de 2009




"Mas eu ia te escrever aquela carta". A caneta era azul e o papel amarelado. O som estava alto e tudo ouvido me remetia a você. Idéias fervilhavam. O início era um problema. Eu conseguia pensar em todos os momentos, mas nenhum se tornava descritível. As horas estavam se acabando. A lembrança do teu olhar me roubou um sorriso, e o teu sorriso me roubou mais alguns minutos. Não sabia se o começo tinha que ser o início. Você teria que entender o que eu estava escrevendo e eu tinha prometido escrever. Eu não podia deixar que aquele último adeus fosse o fim. Eu ia começar pelo início, tinha decidido. A chuva me tirou a atenção e o cheiro de um romance me remeteu de novo a você. Já era 04h00min. O trem partia as seis e ainda tinha um caminho a percorrer até chegar à estação. Lá eu não saberia o que te dizer, então tinha que ser uma carta. O início foi um conto de fadas e o resto também. Até que veio a partida, mas não era do fim que eu queria falar. Eu queria que aquelas palavras não deixassem que o fim chegasse. Decidi o que escrever. Ia falar do teu cheiro. Ia falar do teu calor. Ia comentar daquela primeira noite de amor. Ia falar dos teus abraços. Repentinamente, veio-me a falta de romantismo. E eu não queria falar de mais nada daquilo. Pensei em fazer um rascunho. Não ia dar tempo, já eram 04h30min. E se fizesse rascunho na relida eu ia tirar o excesso de sentimentalismo. Agora eu já queria que fosse de tudo. Alguma coisa caiu lá fora, não era mais a chuva. Mas o frio aqui dentro só aumentava. O frio em mim. A falta de você. E mais uma vez a carta que eu precisava escrever. Lembrei da noite naquele parque de diversões. Do piquenique no lago. De tua cara de viciado na nossa cumplicidade. De minha cara de quem não entendia nada daquilo. E da minha vontade que tudo aquilo continuasse desentendido, ou ao menos aparentemente desentendido. Eu sabia de tudo que se passava por ali. Nunca penses que tu sabes o que se passava por aqui. Eu poderia começar te contando que você sempre soube de tudo, e eu sempre sabia que tu sabias. Era só charme. Mas nostalgia nessa carta não cairia bem. Eu preciso te contar o que planejei pra depois daqui. Eu tenho que começar. Pensei em você tentando me dizer por onde, e como sempre tinha várias oportunidades. Mas eu só queria uma. Ás 05h00min da manhã eu não saberia fazer escolhas. Fiquei apreensiva. O tempo não se cansava de passar. Parecia até sorrir da minha cara de desesperada. O tempo fez-me lembrar da infinitude dos nossos momentos e da infinitude dos momentos que tínhamos que esperar pra nos encontrar. Eu queria tua mão em meu rosto. Juro que te daria um sorriso e te diria seja bem vindo. E você não me levaria a sério, tu sabias que aquele lugar era teu. E que aquele sorriso era do toque de tuas mãos. Percebi que o papel amarelado estava meio molhado, despercebida, deixei escorrer uma lágrima. E então, lembrei-me da carta. E aquela lágrima seria a minha carta. Dizia tudo que eu precisava e como ficaria se te perdesse. Fechei o envelope. Alguém te entregou. Você não soube interpretá-la. Você partiu. Me partiu. Mandou-me um telegrama. Vi tua tristeza por causa de um papel em branco. Vi minha decepção. Veio o desencanto. Não tive vontade de enfrentá-lo. Tua insensatez me feriu, mas minha delicadeza permaneceu: “Mas eu ia te escrever aquela carta, mas as 06h00min chegaram cedo demais”. E por fim um adeus. Foi a minha resposta. Eu sustentaria a tua partida. Mas um encanto quebrado é pra nunca mais.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Anfitriã




A luz da casa já tinha sido cortada há um mês. Era uma madrugada fria, e ela, impaciente, levantou-se da cama e foi até a cozinha. Chovia muito. Tinha um resto de café frio feito há cerca de 5 horas atrás. Ela sentou na única cadeira que tinha no local e tomou esse resto de café. Ficou ali, perto da porta, entre cochilos e sustos, até que amanheceu o dia. O primeiro feixe de luz e sua visita chegaram concomitantemente. Chegou e ficou ali mesmo pelo chão. Sua visita e ela se olharam por intermináveis horas e sem saída começaram um diálogo forçado. A visita foi a iniciante:

- Faz tempo que não te vejo bem, mas a cada dia você fica pior.
- Não entendo porque você insiste em voltar todos os dias.
-Tu sabes que não é exatamente uma escolha, minha obrigação é te acompanhar.
- Não mais, a partir de hoje.
- O que posso fazer pra nos ajudar?
- Juro que não sei te responder.
- Vamos ver o sol do lado de fora desse apartamento.
- Meus olhos não suportam a claridade de um dia normal.
- Mas eu não resistirei muito tempo aqui dentro. Você já cobriu todas as janelas, só a porta clareia esse lar.
- A porta eu cubro hoje.
- Você vai me matar?
- Desculpe-me, mas é que eu preciso da escuridão.
- Você já não se importa mesmo comigo?
- Você é a prova viva de que eu não existo mais, você é meu reflexo e toda vez que te vejo, lembro-me de que estou em pedaços. Então, decidi que vou sim, matar você.
- Ninguém foi tão fiel a ti, como eu. Ninguém te acompanhou em todos os lugares, o tempo inteiro, que nem eu. Ninguém viveu pra ti, ninguém conheceu seus desejos e suas fraquezas tão bem assim. E ninguém foi capaz de abdicar uma vida pra viver a tua, como eu.
- Olhando pra você, eu lembro disso a todo o momento. E isso é o que mais me faz mal, saber que eu vivi tanto tempo e que agora só me restou você. Pior ainda é saber que você só está aqui por falta de escolha. Não adianta súplicas. Já decidi que vou acabar com você.
- Mate-me se é o teu desejo.
- Sim, é o que eu quero.

Ela levantou-se, jogou uma água no rosto e respirou fundo. Dirigiu-se até a sala e pegou a tesoura. Recortou um monte de pano velho e foi até a porta. Cobriu-a toda, até que mais nenhum feixe de luz pudesse invadir a sua casa. Optou pela completa escuridão e assim, acabou com a única companhia que lhe restava depois de tantos anos de vida e perda: Sua Sombra!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Especialmente para o seminário de Heidegger.

Decidi me suicidar.

Não, não é por nenhum desses motivos que vocês estão pensando. É apenas por mera curiosidade.

A morte tem um semblante misterioso que me chama atenção. Metade das pessoas que eu conheço tem medo da morte, a outra metade prefere não falar e nem sequer pensar no assunto. Os outros da minha vida me falaram horrores da morte, mas não imaginavam que aqueles depoimentos melancólicos só instigavam a minha vontade de conhecer esse monstro mais de perto.

Sai de casa pensando em me matar, mas eu queria que fosse diferente e sentei pra pensar onde eu encontraria a morte. Numa queda de apartamento, numa bala de revólver, numa faca cravada no peito, numa corda amarrada no pescoço, hum, nada disso me chamou atenção. Eu comecei a olhar ao meu redor. Um amontoado de gente apressado, sem nenhum sorriso, algumas crianças deitadas no chão acordando de uma noite mal dormida, um cego com sua viola pedindo esmola, discussões no bar da esquina sobre o jogo da noite passada, carros importados com pessoas exibidas desfilando logo cedo, um casal de apaixonados e outros dez se desapaixonando, idosos dando suas caminhadas, um monte de pessoas vivendo de acordo com a possibilidade escolhida. Em cada pessoa daquela eu vi uma vida viva, e por trás de cada situação daquela eu vi a morte. Vi morrer a oportunidade de uma pessoa conhecer a história de vida da outra por conta da pressa, vi morrer a esperança daqueles meninos de rua, vi morrer a decência diante da necessidade, vi morrer um bom dia de trabalho por causa da briga com o marido, vi morrer a possibilidade de dormir mais um bocado só pra manter uma boa saúde, vi morrer, mais do que qualquer outra vez, a coragem de encarar a morte como rotina. Tudo é possibilidade, se se faz isso, se perde aquilo. Sendo assim, toda escolha é uma morte. Observando de longe, toda morte é muito viva.

Essa foi a primeira vez que eu me lembro ter temido a morte. Eu a vi ali, bem perto, mais próxima do que alguém jamais tinha me dito. Lembrei-me que já havia morrido mil vezes. Morri quando não ganhei a boneca nova nem a roupa da moda, quando acabei com o primeiro namorado, quando chorei a noite toda por uma briguinha besta com a melhor amiga, quando levei a primeira suspensão na escola, quando fiquei sem receber a mesada, quando não passei no vestibular, quando perdi o emprego. Morri, porque a morte sempre é uma possibilidade de que nunca se pode escapar. E isso é o que intriga os homens na sociedade atual, diante da morte não se tem escolha, apenas se morre.

Mas eu não vejo como dizem por ai, uma coisa ruim na morte. Um dos maiores problemas é justamente essa fuga desenfreada de uma morte idealizada. Essa fuga nos leva as vivências inautênticas. Faz-nos consumir exacerbadamente objetos, imagens, comidas, cigarros, vivências e idéias. Não somos quem queremos ser, somos quem nos obrigam a ser, pior ainda, não sabemos que podemos escolher. Estão acabando com nossas possibilidades. Temos que beber coca-cola, comer carne, venerar o que a mídia nos oferece, juntar muito dinheiro, querer o carro do ano, almejar o cargo mais alto, concorrer com milhares de pessoas pra ter um nível superior, fazer um curso que dê dinheiro, sempre temos que querer dinheiro e mais dinheiro, pra que não quebre a corrente dos consumistas quase felizes e alienados.

Não pensem que morrer é falecer, apenas. Morrer é ser omisso, ser igual a todo mundo porque seus ombros não suportam a diferença e é não respeitar a diferença por não ter coragem de assumir as suas. É buscar sempre desculpas pra suas mancadas e vacilo e viver num mundo que sustente seus vícios supérfluos e suas virtudes hipócritas. Se você pensar um pouco não é preciso tudo isso. Você precisa é viver angustiado. A angústia mostra que tu és um ser de falta e assim você não precisa sempre querer tudo. Não queira tudo porque você é um ser de ausência.

Morra pra mudar. Mate o que te mantém longe da morte, o que te faz achar que és eterno, o que te impede de fazer projetos. Morra pra viver autenticamente, tendo sua vida própria e seguindo os seus próprios sentimentos.

Angústia e morte não são coisas ruins, são possibilidades intrínsecas de cada ser humano. O que as faz ruim são os olhares que direcionamos pra elas.

E então, desisti de me suicidar. A curiosidade que tinha pela morte acabou quando decidi pensar sobre ela. Descobri que conheço a morte mais do que pude imaginar. Enfrentar a morte é perder tempo, pensar sobre ela e aceita-la me fará viver melhor. Agora eu entendo que é preciso morrer pra me sentir viva e que na verdade o que amedronta as pessoas não é a morte em si, mas as impossibilidades desnecessárias que lhe são impostas, ainda em vida.

De um outro lado.

Meu bem tem alguma coisa de errado comigo.

O quadro da minha sala amanheceu fora do lugar. Minha xícara desapareceu e tomei um café amargo, contrariando o meu gosto rotineiro, num copo descartável. E pra completar, aquele cadarço verde que tinha uma sintonia perfeita com meu Allstar preto, tornou-se inútil pra mim. E eu me achei ridícula por tê-lo usado durante tanto tempo numa total falta de combinação. Sinceramente, cadarço verde não tem nada a ver com tênis preto.

Meu bem tem muita coisa errada comigo.

Sabe aquela blusa que eu odiava quando as meninas vestiam? Pois é, já faz parte do meu guarda-roupa. Não gosto mais tanto assim do meu livro preferido e enjoei da música que me definia. Não tenho certeza, mas acho que as ruas mudaram de cor. Hoje decidi acordar mais cedo e fui caminhar pelo quarteirão. De forma assustadora ninguém me deu bom dia, e eu parecia aos olhos dos vizinhos uma completa estranha, mas impressionantemente eu não vi mudança em nenhum deles.
É difícil pra mim, falar do que sou agora.
Ah meu bem, eu já não me apego mais tão fácil assim.
Minhas lágrimas só caem se forem merecidas.
Acho que meu coração petrificou-se. Sem culpados!
Mas eu percebi que nem meu diário é tão fiel a mim.
Ainda controlo meus desejos, mas não detenho mais sua invisibilidade. Isso é inquietante.
Coisas piores me aconteceram. Queria visitar uma amiga de infância, mas não tive coragem. Não tenho mais o que conversar com ela, deixei o meu tempo passar por vontade própria. E meu confidente já não conhece os meus segredos, ele vive a dizer que perdi a confiança, mas não é isso. Eu sei que não é isso. Eu confio nele, mas meus segredos vivem a se esconder até mesmo de mim.

Meu bem escute essas.
Há um tempo atrás eu queria muito trocar a cor do meu carro. O vermelho já não me satisfazia, eu queria um azul, um azul bem escuro. Então troquei. Mas olhando bem agora, o azul me enlouquece. Eu quero um carro vermelho.
Sabe meu bem, eu até já fui sentimental. Mas parando pra refletir, acho que nem sei o que é o amor. E que o amor não se esqueça que nunca se lembrou de mim. Só agora percebi que as pessoas não me pertencem, mas isso não significa dizer que aceito isso tranquilamente. Minhas amizades tiram o meu juízo, eu adoro quando isso acontece. Achei que não sentia ciúme nem orgulho. Confesso-te que os sinto absurdamente, e eles voltam sempre como se nunca tivessem ido embora.
Um dia desses aí, levei uma queda e me machuquei muito, mas nem chorei. Achei-me uma pessoa tão forte. Definitivamente, estava enganada. Eu não cresço com os sofrimentos. Eles se repetem continuamente, iguaizinhos como antes. E eu os sofro do mesmo modo e com a mesma intensidade. Eu achei até que isso fazia de mim uma pessoa infeliz. Mas conversando com você, meu bem, eu vejo a felicidade sentada ao meu lado.

Ah meu bem, achei uma carta antiga que me chamava de louca. Logo eu, tão equilibrada. Tão equilibrada que rasguei essa carta por não me satisfazer.

Meu bem está tudo errado comigo.

Meu bem? Meu bem?

Ahhhh,
O meu bem mudou de número.

(Desde sempre)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Súplica de amor (não suplique amor).

Cara,
Olha nos meus olhos e me diz exatamente quando comecei a te perder.
Não deixe pra lá, de novo.
Responda-me agora: O que você quer de mim?
Nada? Então pare de me iludir. Pare de dizer que está errado eu longe de você.
Deixe de ser egoísta. Deixe de se sentir bem só com o seu bem.
Deixe-me em paz.
Tudo bem se eu não sou nada pra você.
Tudo bem? Claro que não está tudo bem.
Mas você tem esse direito. É seu e não posso intervir.
Sabe? Até posso intervir. É. Eu posso tentar. Mas, olha cara, eu não quero. Eu te quero aqui, mas não quero ir até ai.
Você sabe o meu caminho. Sabe também que estarei sempre a te esperar.
Não queria. Mas é isso que acontece.
Sempre que você quiser estarei por aqui. O meu medo é que você não queira nunca.
Agora mesmo, você não quer.
Olha cara,
Estava tudo tão certo. E você estragou. Sinceramente, eu não te entendo.
Nem te quero mais. Não! Eu te quero.
Larga tudo e vem pra cá. Deixa o resto para que você resolva depois. Mas agora venha me resolver.
Eu estou aqui, pensando em você. Eu sei que você sabe disso.
Então por que esperar mais um pouco?
Não faça isso comigo. Não agüento mais nenhum segundo. Isso é sério.
Eu sei que está rindo da minha cara, mas cara, isso é sério.
Não vai vir agora? Tudo bem.
Amanhã eu estarei aqui, e depois de amanhã também, e depois, ..., e sempre.
Ah cara,
Não me destrua assim. Não assim.
Quero você, cara.
Não dá pra ver? Você não entende o que eu digo?
Não quer entender, ou de verdade você não entende?
Cara,
Não troque o meu amor, não faça isso.
Nada valeria tão a pena. Não digo que irá se arrepender.
Eu sei que nem sequer sente minha falta, mas e eu?
Você não pensa em mim? É. Eu sei que não.
Mas pense. Sinta-me. Ame-me. Ouça-me, cara.
Preste atenção no meu olhar, ele fala por mim. Ele te chama pra mim.
Você não vê?
Cara! Chega!
Tudo bem. Se estiver bom pra você, tudo bem pra mim.
Esqueça-me que já estou esquecendo de você.
Não cara. Não estou.
Essas coisas de amor não passam assim. Vou continuar por aqui. Meu endereço será sempre o mesmo para que você não se perca para me encontrar.
Não esquece que estarei sempre aqui. Aqui, onde você deixou.
Sem pudor, ao seu dispor.
Se puder, venha me visitar amanhã, ou depois, ou depois, quando quiser.